
Era época de escassez em sua vida, faltava alegria, faltava ânimo. Suas relações eram cheias de vazios, daqueles vazios ensurdecedores.. e pior, faltava esperança. Já não sabia mais como se pôr de pé, sentia-se perdido, seu mundo estava de pernas pro ar. Faltava ar, não daquele de respirar, faltava-lhe ar.
Então, naquele dia, começou a faltar gravidade e o que não se amarrava, voava até se perder de vista. Olhou assustado ao ver suas coisas indo embora, logo quando pensava não ter mais o que perder nessa vida. Parou, pensou, e na iminência de perder tudo que lhe restava, correu em busca de cordas e fitas adesivas. Precisava salvar algo, precisava prender suas coisas e deixá-las em seus devidos lugares, seguras, inanimadas, inertes.
Entretanto, logo parou e contrariando toda sua concepção de vida, teve um lampejo de lucidez. Resolveu não prender nada ao chão.. Conforme suas coisas iam flutuando, prestes a irem embora, foi se dando conta de que certas coisas que ali estavam, ele nem reconhecia mais, apenas as guardava, deixando-as paradas em algum canto.
Já não compreendia o significado do gatinho de madeira que decorava sua mesa de centro, muito menos da taça de estanho que viu alçar voo da estante lotada de itens semelhantes. Eram cinzeiros de pedra-sabão, potinhos de cerâmica, porta-retratos com rostos desconhecidos, taças de cristal, pequenas estátuas talhadas em madeira e até uma peça de marfim de forma indistinguível. Ele sabia que, em algum momento, aquilo fora especial em sua vida. Mas, de repente, nada mais fazia sentido.
Olhou perplexo, ao perceber que suas coisas já não eram mais suas. Foi então que para sua própria estranheza, pela primeira vez, começou a sentir-se livre e como não sabia o que ia acontecer, aproveitou, se soltou, respirou fundo, sorriu e começou a dançar no teto.. *e o mundo fazia sentido de pernas pro ar, e o mundo visto ao contrário parecia no lugar.*
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Texto inspirado na letra da música:
Quando fui Fred Aster – Jay Vaquer
*Trecho da música*
Para Renique.
Obrigada. Saudades..